"A cabeça pensa onde os pés pisam" Paulo Freire

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Bolívia: Che Guevara estava certo e Marx também

Diz-se por ai que Che Guevara fez uma má leitura da conjuntura política boliviana e por isso a sua guerrilha fracassou e ele foi assassinado. Diz-se também que Marx errou ao anunciar os operários como sujeito revolucionário e os camponeses como reacionários. Será?

Che Guevara e o seu legado

Che Guevara chegou à Bolívia nos finais de 1966 com a ideia de fazer uma revolução armada, assim como foi feita em Cuba no ano de 1959 com apoio dos camponeses. Sua guerrilha obteve apoio dos trabalhadores mineiros, mas não dos camponeses, diferente do que havia passado em Cuba. Isso porque no ano de 1967 a Bolívia estava governada por uma ditadura militar que, aproveitando as conquistas da Revolução de 1952, que começou um processo de Reforma Agrária, fez um acordo com o setor camponês. Além desse acordo, a publicidade contra a guerrilha era muito forte e espalhou-se o terror entre os camponeses. Diziam que os guerrilheiros comunistas queriam tirar as terras conquistadas pelos camponeses durante a Reforma Agrária para dar a outras pessoas. Nesse momento Marx estaria certo em relação aos camponeses bolivianos do meio do século XX, assim como estava certo em relação aos camponeses do século XIX. Muitos dos camponeses se opuseram ao movimento guerrilheiro-revolucionário por falta de informação e por defender a sua propriedade e acabaram por delatá-lo ao exército boliviano, o que fez com que os guerrilheiros fossem assassinados aos poucos. No dia 08 de outubro 1967 o comandante Che Guevara foi capturado e, por ordem da CIA, executado no dia seguinte. Até aqui poderíamos pensar que Che Guevara teria se equivocado, já que ele morreu e a sua guerrilha desaparecu. Porém, a Revolução Boliviana não acaba no dia 09 de outubro de 1967. Pelo contrário. É aqui que ela começa.

Após a morte de Che Guevara uma imensidão de gente descobre quem ele era de fato. Melhor que a publicidade anticomunista dos militares e dos EUA e qualquer publicidade que a guerrilha poderia ter feito a seu favor, a morte de Che a fez. A sua guerrilha desapareceu, mas foi com a sua morte que o seu exército começou a aumentar. Diversos grupos de esquerda e grupos guerrilheiros inspirados na figura de Che começaram a surgir e crescer cada vez mais. Che se tornou um símbolo e uma inspiração para a juventude, para os trabalhadores e em especial para os camponeses na Bolívia. Até mesmo dentro do exército boliviano começaram a surgir guevaristas. Assim que nos finais da década de 1960 as lutas populares e socialistas começam a intensificar-se.

Universidade - La Paz


Os povos originários e os camponeses já estavam cansados de quase 500 anos de barbárie, exploração e de apenas resistir. As manifestações começam com o levante indígena na década de 1980. Resolveram sair da resistência e chegar às reivindicações. Feito que só se realizou porque estavam organizados. As reformas neoliberais e os abusos da direita não poderiam resistir a essa organização e a disposição à luta do povo boliviano.

Rádio no bairro Plan 3000 - Santa Cruz

Os dois maiores marcos na história contemporânea da Bolívia

a) No ano 2000 o governo boliviano provou a Lei nº2029 que permitia a venda dos recursos da água e que obrigava a população a pagar até mesmo para pegar água da chuva, além de outros absurdos. Assim que assumiu o controle da água, a empresa responsável aumentou a tarifa em 35%, tornando-a impagável para muita gente. Manifestações tomaram conta do Departamento de Cochabamba e os empresários que compraram Água de Tunari foram expulsos à força. Esse fato deu origem ao que se chama de A Guerra da Água. A pressão popular fez então com que a lei fosse modificada. Todo esse processo foi intensificado pelos trabalhadores das minas, pelos movimentos camponeses e indígenas, os quais já tinham como representante o então Deputado de Cochabamba Juan Evo Morales Ayma.

Debates políticos que acontecem todos os finais da tarde na praça 14 de Setembro - Cochabamba

b) Em 2003 o governo decide construir um gasoduto que iria até o Chile para se exportar gás natural ao México e aos EUA. O problema é que a população pagava caro pelo gás e nunca havia recebido benefícios pela sua venda. A idéia do governo era privilegiar a exportação em relação ao mercado interno boliviano. Foi então que os camponeses que haviam sido expulsos de suas terras e que foram viver na cidade de El Alto, região periférica da capital La Paz, resolvem fazer um paro cívico. O governo na tentativa de acabar com a revolta enviou o exército e o autorizou a disparar contra os manifestantes. No conflito o exército matou 5 pessoas, dentre elas uma criança. As manifestações então se massificaram, ganhando apoio dos movimentos sociais, dos camponeses e dos trabalhadores, e intensificam-se. Começam a exigir a renúncia do então presidente Gonzalo Sánchez de Lozada. Pressionado, Lozada renunciou em outubro de 2003 e em seguida fugiu do país. Assumiu a presidência Carlos Mesa que também foi obrigado a renunciar em 2005 pela radicalização das manifestações. A população estava esgotada e queria eleições antecipadas para eleger um representante do povo. São realizadas eleições no final de 2005 e ganha Evo Morales com quase 54% dos votos, junto com seu vice-presidente Álvaro García Linera (ex-guerrilheiro e importante intelectual marxista).

O proletariado e o protagonismo camponês

Na página 24 do Manifesto Comunista, Marx e Engels escrevem: “De todas as classes que ora enfrentam a burguesia, só o proletariado é uma classe verdadeiramente revolucionária. As outras classes degeneram e perecem com o desenvolvimento da grande indústria; o proletariado pelo contrário, é o seu produto mais autêntico. As classes médias – pequenos comerciantes, pequenos fabricantes, artesãos, camponeses – combatem a burguesia porque esta compromete sua existência como classe média. Não são, pois, revolucionárias, mas conservadoras; mais ainda, reacionárias, pois pretendem fazer girar para trás a roda da História. Quando são revolucionarias é em consequência de sua iminente passagem para o proletariado; não defendem então seus interesses atuais, mas seus interesses futuros; abandonam seu próprio ponto de vista para se colocar no do proletariado.”.

Ora, me parece um pouco óbvio que eles se referiam ao campesinato e ao operariado fabril europeu do século XIX. Ou alguém realmente acha que o pequeno agricultor boliviano dos séculos XX e XXI representa a classe média?

Talvez algum desavisado, que não conheça o desenvolvimento capitalista na Bolívia e a sua história contemporânea, pudesse dizer que o campesinato boliviano continua sendo reacionário, pois, assim como Marx diz sobre o campesinato europeu do século XIX, só são revolucionários nesse momento histórico porque defendem seu interesse futuro, o interesse pela sua propriedade. Afirmar isso significa não saber que o campesinato boliviano do século XXI reivindica outro modo de produção, que não o da acumulação. O que está em pauta para eles não é a defesa da propriedade, se não a superação do capitalismo imperialista.

Marx então estaria errado? Não. Ele estava certo. Duplamente. Uma por referir-se aos camponeses europeus do século XIX como reacionários, porque esses sim representavam a classe média, eram fruto das revoluções burguesas e gozavam do desenvolvimento capitalista e industrial; e outra por dizer que a classe verdadeiramente revolucionária é o produto mais autêntico das atrocidades do desenvolvimento capitalista, ou seja, a sua prole. No caso boliviano, de economia tipicamente petroleira, mineira e agrícola, estes são os pequenos agricultores, os trabalhadores agrícolas, os ex-agricultores marginalizados (expulsos para a cidade) e os operários urbanos.

“As concepções teóricas dos comunistas não se baseiam, de modo algum, em idéias ou princípios inventados ou descobertos por tal ou qual reformador do mundo. São apenas a expressão geral das condições reais de uma luta de classes existente, de um movimento histórico que se desenvolve sobre os nosso olhos” Marx e Engles, Manifesto Comunista, p.30.

Tentar titular Marx como um reformador do mundo seria um dos piores pecados marxistas. Para ele os trabalhadores são potencialmente os sujeitos revolucionários para superação do capitalismo porque são vítimas diretas da exploração do Capital e porque, como é do seu trabalho que se produz a riqueza de uma sociedade, são eles que possuem a arma para uma transformação. Esses eram os trabalhadores fabris na Alemanha e na Inglaterra na indústria crescente no século XIX, porque eles é que produziam a riqueza que sustentava essas duas potências. E esses foram os trabalhadores camponeses e mineiros bolivianos em 2003.

A Revolução Democrática

Os camponeses encabeçaram um processo revolucionário na Bolívia. Che Guevara então estaria certo? Talvez eu pudesse afirmar que não por saber que ele não era suicida. Mas posso afirmar que sim quando conheço os seus propósitos, suas convicções e seus princípios. A história e as revoluções não se constroem em um dia e nem em um ano. E Che obviamente sabia disso.

No ano de 2005 o camponês cocaleiro Evo Morales, nascido em 1959, filho da Revolução Cubana e das manifestações dos trabalhadores bolivianos, ganhou as eleições para presidente. Havia sido o primeiro deputado indígena em 1997 e agora é o primeiro presidente indígena da Bolívia. A partir de 2006, seu primeiro ano de governo, é que começam as transformações: a principal delas é que a governabilidade foi transferida da embaixada dos EUA para as ruas, ou seja, não é mais com os EUA que o governo negocia suas políticas, se não com o povo nas ruas e nas suas comunidades; o governo é cada vez mais tomado por indígenas, que representam mais de 60% da população boliviana; nacionalizações de setores estratégicos (antes de 2005 as empresas estrangeiras – dentre elas a Petrobrás - possuíam 73% dos lucros do petróleo, enquanto o Estado possuía somente os 27% restantes. Depois de 2006 a porcentagem inverteu-se; até 2005 o estado tinha entre 33% e 35% dos lucros sobre a mineração. Em 2008 passou a ser de 55% a 75%; antes de 2005 o Estado possuía 27% dos lucros do setor de telecomunicações. Hoje tem 39%); até 2005 o governo não investia nada na agricultura e em 2008 já investia cerca de US$210 mi em crédito para os pequenos produtores; os dirigentes dos movimentos sociais ocupam cargos de ministros; hoje são reconhecidos os 36 diferentes idiomas das 36 diferentes nações que existem no país (idiomas que por muito tempo foram proibidos de serem usados em espaços públicos); a República da Bolívia deu lugar ao Estado Plurinacional da Bolívia; a bandeira indígena Wipala agora divide espaço com a bandeira da república que é verde, amarela e vermelha; aprovou-se uma nova constituição de caráter popular e democrático; o poder judiciário agora é escolhido por eleição assim como o poder legislativo e executivo; etc.

Palácio do Governo - La Paz

Depois de quatro anos de governo popular, Evo Morales, o partido MAS (Movimento ao Socialismo), o Pacto de Unidade (organização que congrega os cinco principais movimentos sociais da Bolívia: Confederación de Pueblos Indígenas de Bolivia - CIDOB, Confederación Sindical Única de Trabajadores Campesinos de Bolivia - CSUTCB, Confederación Nacional de Mujeres Campesinas Indígenas Originarias de Bolivia “Bartolina Sisa” - FNMCIOB”BS”, Confederación Sindical de Comunidades Interculturales de Bolivia - CSCIB e Consejo Nacional de Ayllus y Markas del Qullasuyu - CONAMAQ) e o povo boliviano, ganharam uma vez mais as eleições para presidência em 2009 (desta vez com mais de 64% dos votos) e conseguiram eleger governadores nos seis dos nove departamentos (estados) na eleição de 2010.

De fato não se pode chamar o processo boliviano de uma revolução socialista (Álvaro Garcia Linera, vice-presidente, prefere chamar essa construção de Socialismo Comunitário, em uma tentativa de criar a conciliação do socialismo enquanto superação do capitalismo e da herança histórica da organização comunitária indígena). Porém, é inegável que a luta entre as classes sociais já não pende mais para o mesmo lado que antes de 2006.

sábado, 11 de setembro de 2010

O dia em que o azul se separou do amarelo

Ontem você me deu a triste notícia de que voltaria já ao Brasil.

Passamos por Cuba, Venezuela, Colômbia, Equador, Peru e Bolívia e foram exatamente sete meses e meio juntos. Às vezes acompanhados de outros, mas todos passageiros. Éramos só nós mesmo.

Havia momentos em que éramos uma só pessoa, momentos em que éramos dois e momentos em que parecíamos muitos. Me lembro que nossa primeira discussão aconteceu quando achei que éramos uma só pessoa, já a segunda porque achei que éramos duas.

Eram literalmente 24 horas juntos. Dividíamos o sabonete, a cama, a roupa, a comida, o tempo de internet. Quase tudo. Coisa que raros matrimônios suportariam.

Saímos do Brasil com um claro objetivo de compreender os processos políticos de cada país e também o que passa em totalidade na América Latina. Para isso necessitávamos conhecer a perspectiva dos povos sobre esse processo através dos movimentos sociais e das organizações populares. Conhecemos muita coisas e obtivemos muitas respostas. Mas acabaram ficando mais inquietações e dúvidas, das quais muitas, através de nossas reflexões, se tornaram grandes responsabilidades.

Encontramos coisas também que a princípio não buscávamos: descobrimos mais a fundo o que é a saudade, a amizade, o amor, etc.

Quanto mais o tempo passava, mais a vontade de voltar ao Brasil (para matar a saudade que sentíamos, pelas responsabilidades que deixamos para trás, ou para lutar) aumentava, mesmo que em proporções diferentes.

Acho que sempre ficarei com a dúvida de que algo poderia ter sido diferente. Talvez se você falasse mais. Talvez se eu tivesse perguntado mais.

Enfim essa nossa busca pela América Latina acaba aqui, dia 5 de setembro de 2010, em Santa Cruz de La Sierra, Bolívia. Isso porque não faz sentido pensar que eu possa fazer a nossa viagem sozinho. Viajar agora não possui mais o mesmo significado que antes, pois não terá mais nossas reflexões e conclusões.

Muita coisa se passou ao longo desses sete meses e meio. Eu poderia ficar horas escrevendo sobre cada passo que demos, mas deixarei isso para todas as conversas que ainda teremos ao longo de nossas vidas. Não podemos ser um agora que estamos separados, porém poderemos sê-lo sempre que nos encontrarmos.

Aí é que vem a boa noticia: sempre que o azul se encontrar com o amarelo, eles voltarão a ser o verde.



Nos vemos no Brasil!

Beijos Miguxo!

Theo.

Santa Cruz, 5 de setembro de 2010.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Plebiscito Popular pelo limite da terra será realizado em setembro


Plebiscito Popular pelo limite da terra será realizado em setembro
por Assessoria de Comunicação FNRA

O Plebiscito Popular pelo limite da propriedade da terra será o ato concreto do povo brasileiro contra a concentração de terras no país, que é o segundo maior concentrador do mundo, perdendo apenas para o Paraguai. Esta consulta popular é fruto da Campanha Nacional pelo Limite da Propriedade da Terra, promovida pelo Fórum Nacional da Reforma Agrária e Justiça no Campo (FNRA) desde o ano 2000.

A campanha foi criada com o objetivo de conscientizar e mobilizar a sociedade brasileira sobre a necessidade e a importância de se estabelecer um limite para a propriedade. Mais de 50 entidades, organizações, movimentos e pastorais sociais que compõem o FNRA estão engajadas na articulação massiva em todos os estados da federação.

Cada cidadã e cidadão brasileiro será convidado a votar entre os dias 01 e 07 de setembro, durante a Semana da Pátria, junto com o Grito dos Excluídos, para expressar se concorda ou não com o limite da propriedade. O objetivo final é pressionar o Congresso Nacional para que seja incluída na Constituição Brasileira um novo inciso que limite a terra em 35 módulos fiscais, medida sugerida pela campanha do FNRA. Áreas acima de 35 módulos seriam automaticamente incorporadas ao patrimônio público e destinadas à reforma agrária.

"A Campanha da Fraternidade deste ano também propõe como gesto concreto de compromisso a participação no plebiscito pelo limite da propriedade. Um limite para a propriedade faz parte de uma nova ordem econômica a serviço da vida", afirmou Dirceu Fumagalli, membro da coordenação nacional da CPT. Para ele, uma consulta popular, mais do que obter resultados concretos com a votação, é um processo pedagógico importante de formação e conscientização do povo brasileiro sobre a realidade agrária. "São milhares de famílias acampadas à espera de uma reforma agrária justa. São índices crescentes da violência no campo. É o crescimento desordenado dos grandes centros urbanos. Tudo isso tem relação direta com a absurda concentração de terras no Brasil."

Segundo Luiz Claudio Mandela, membro da coordenação colegiada da Cáritas Brasileira, os promotores do plebiscito querem dialogar com a sociedade sobre a concentração de terras no Brasil. "Isso interfere na estrutura política, social, econômica e geográfica do país", ressaltou. De acordo com Mandela, durante toda a campanha estão sendo coletadas assinaturas para que esta proposta seja convertida em um projeto de iniciativa popular. "Para isso precisamos de, no mínimo, 1,5 milhão de assinaturas. Mas pretendemos superar esta meta."

Outras informações:

Por que limitar as propriedades de terra no Brasil?
Porque a pequena propriedade familiar, segundo dados do Censo Agropecuário do IBGE 2006:
  • Produz a maior parte dos alimentos da mesa dos brasileiros: toda a produção de hortaliças, 87% da mandioca, 70% do feijão, 46% do milho, 38% do café, 34% do arroz, 21% do trigo; 58% do leite, 59% dos suínos, 50% das aves.
  • Emprega 74,4% das pessoas ocupadas no campo (as empresas do agronegócio só empregam 25,6% do total.)
  • A cada cem hectares ocupa 15 pessoas (as empresas do agronegócio ocupam 1,7 pessoas a cada cem hectares).
  • Os estabelecimentos com até 10 hectares apresentam os maiores ganhos por hectare, R$ 3.800,00.
Enquanto a concentração de terras no latifúndio e grandes empresas:
  • Expulsa as famílias do campo, jogando-as nas favelas e áreas de risco das grandes cidades;
  • É responsável pelos conflitos e a violência no campo. Nos últimos 25 anos, conforme a Comissão Pastoral da Terra (CPT):
·
    • 1.546 trabalhadores foram assassinados e houve uma média anual de
    • 2.709 famílias expulsas de suas terras!
    • 13.815 famílias despejadas!
    • 422 pessoas presas!
    • 765 conflitos diretamente relacionados à luta pela terra!
    • 92.290 famílias envolvidas em conflitos por terra!
  • Lança mão de relações de trabalho análogas ao trabalho escravo. Em 25 anos 2.438 ocorrências de trabalho escravo foram registradas, com 163 mil trabalhadores escravizados.
Procure por maiores informações em http://www.limitedaterra.org.br/

sábado, 28 de agosto de 2010

O que Cuba não tem que nós temos?

Celulares supermodernos; carros de ultima geração; novelas nacionais; o melhor futebol do mundo; o maior carnaval do mundo; feijoada; possibilidade de “ascensão social”; livre iniciativa privada; brigadeiro; TV digital de alta definição; computadores modernos; mansões; shopping center; Mc Donalds; a possibilidade de fazer quase tudo o que quiser se tiver dinheiro; fome; crianças na rua pedindo dinheiro; um dos maiores níveis de desigualdade social do mundo; dívida pública impagável; desemprego; saúde privatizada; educação privatizada; favelas; analfabetos; violência descontrolada; alta mortalidade infantil; trabalho escravo nos latifúndios; trabalho infantil; os políticos mais corruptos do mundo; meios de comunicação privados; monopólio de multinacionais; etc...

sábado, 21 de agosto de 2010

Cusco em greve!!!

No dia 27 de julho de 2010 o povo de La Convención, província da Região de Cusco/Peru, resolveu iniciar uma greve sem data para terminar contra a exportação do gás de Camisea.


No Peru se paga pelo gás mais caro do mundo. Na província de La Convención paga-se até 50 soles (cerca de 18 dólares) pelo botijão. Sem dúvida o gás mais caro em termos relativos (se considerarmos que o salário mínimo no Peru é cerca de 215 dólares). A grande contradição de pagar pelo gás mais caro do mundo é o fato de essa província ser grande produtora de gás, inclusive exportadora.


Alan Garcia, atual presidente do Peru e defensor da exportação do gás em benefício do consorcio Hunt Oil-Repsol-Pluspetrol, ordenou desde o primeiro dia a repressão aos grevistas e agora que a luta se estende e aprofunda, declarou Estado de Emergência e enviado tropas.



O conflito surgiu faz mais de um mês quando o consórcio iniciou a exportação do gás. O grande problema foi que se passou a priorizar a exportação em relação ao abastecimento interno. Cobra-se preços escandalosos pelo gás. O preço de exportação é cinco vezes menor que pagam os usuários peruanos (0,5 dólares por milhão de BTU frente a 2,5) e é vendido no mercado internacional por oito ou até dez vezes mais.

Os trabalhadores alegam que esse gás poderia estar sendo usado para calefação ou o seu recurso poderia estar sendo utilizado para comprar moradias dignas, de modo a combater o fenômeno da friagem que já matou 407 pessoas, sobretudo crianças.

Depois de 11 dias de luta localizada e com a cidade de Quillabamba totalmente parada, os quillabambenhos resolveram ir à cidade de Cusco, capital da Região com as reivindicações principais de nacionalização do gás no Peru e o fim da exportação dos lotes 88 e 56 de Camisea para abastecimento interno.


Marchas pacíficas foram realizadas diariamente, recebendo o apoio da população através de aplausos e doação de água e comida dos comerciantes locais. As forças foram somando-se, principalmente com a adesão dos estudantes da Universidad Nacional San Antonio Abad del Cusco, que realizaram uma marcha com cerca de 1000 pessoas, que somada aos trabalhadores chegou a mais de 2000 na praça de armas, principal praça de Cusco.


No dia 9 de agosto os dirigentes dos movimentos que estavam encabeçando a greve se reuniram com um grupo de ministros. Mesmo contra a vontade dos grevistas, dispostos a fazer a greve até que o governo nacionalizasse as reservas, os dirigentes deram ao governo 30 dias para que um grupo de técnicos avalie a situação. Caso o governo não tome nenhuma medida até o dia 9 de setembro, as mobilizações voltaram e a promessa é de que haja um paro nacional.


Esperaremos o dia 9 de setembro!

domingo, 8 de agosto de 2010

1959: o ano da Revolução

1959: o ano da Revolução

Em 1959 as coisas começaram a mudar
O que era novo passou a ser velho
Parecia que tudo iria se transformar
Um novo espectro estava no ar

Algumas tentativas já haviam sido feitas
Nem todas perdidas
Mas nenhuma perfeita

Eu poderia estar falando do dia 1º de janeiro
Dia da chegada à Sierra Maestra
Mas não.
Estou falando do dia 08 de agosto
Dia do nascimento da minha mestra...

Sandra,
Que drena o amor e a sabedoria e os transforma em leite
Leite que se mama da mama da mãe...

Sandra. Ah Sandra!
Que ingenuidade achar que pode chamar o seu filho de Theo
Só porque eres uma Deusa.




Mãe,

essa é uma pequena homenagem do seu filho, que hoje está distante e sem dinheiro, em um dia que seria como todos os outros se você não tivesse nascido nele 51 anos atrás. Um poema sem qualquer tipo de regras poéticas e com rimas pobres. Mas eu acho que tenho licença poética para isso porque escrevo não com a preocupação gramatical, mas sim com a preocupação de demonstrar a admiração e o amor que sinto por você.

Lembro que quando eu era criança te dizia mais de cinco vezes por dia que te amava e isso se perdeu. Acho que a nossa sociedade faz isso com a gente. Então tratemos de mudar! Ela e nós!

TE AMO!!!
TE AMO!!!
TE AMO!!!
TE AMO!!!
TE AMO!!!
TE AMO!!!

Feliz aniversário do seu caçula,

Theo.

Cusco, 08 de agosto de 2010.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Como deve ser o Sistema de Saúde?

Uma viagem como a que estamos fazendo implica em mudanças constantes. De altitude, de pressão, de temperatura, de alimentação, etc. Muitas vezes essas mudanças somadas se transformam em doenças e seus sintomas: febre, diarreia, dor de cabeça, dores musculares vômito, etc. Quando a situação não está mais tão controlável procuramos um hospital.

Separei algumas situações em que tivemos que ir ao hospital para que se perguntem como deve ser o sistema de saúde de um país.


Situação 1

- Lugar: Caimito (cidade pequena cerca de 30 minutos de ônibus de Havana)/Cuba

- Sintomas: dores musculares e princípio de febre

Estávamos saindo do acampamento em Caimito rumo a Havana carregando nossas pesadas mochilas. Como o Daniel não se sentia muito bem, resolvemos parar no hospital da pequena cidade para tentar descobrir o que tinha. De imediato fomos atendidos. Logo depois de 2 horas e de terem feito todos os tipos de exames possíveis no corpo do Daniel, saímos com uma receita médica para comprar antibióticos em uma farmácia, em que os remédios são subsidiados, e sem gastar um real.


Situação 2

- Lugar: Caracas/Venezuela

- Sintomas: manchas vermelhas pelo corpo

Estávamos há um dia em Caracas e nos apareceu diversas pequenas marcas vermelhas no corpo, principalmente nos braços. Já que estávamos passeando e conhecendo a Missão Barrio Adentro, resolvemos entrar e conversar com um médico para tentar descobrir se aquilo era alergia, ou o que era. Imediatamente fomos atendidos por médicos cubanos que ao olharem as manchas disseram que não era alergia e sim picadas de mosquitos. Só na noite seguinte é que fomos perceber que haviam milhares de mosquitos na sala de aula aonde estávamos dormindo na UBV. Saímos de lá sem gastar um real.


Situação 3

- Lugar: Lima/Peru

- Sintomas: diarreia e vômito

Uma noite o Daniel se sentiu mal e não conseguiu dormir porque teve muita diarreia e vomitou. Saímos de casa às 6h30 da manhã para um hospital. Chegamos lá e havia uma fila um tanto quanto grande e parecia estar fechado. Aproximamo-nos e Daniel perguntou a um senhor na fila se o hospital estava fechado e ele disse que sim e que só abria às 8h da manhã. Voltamos para casa para descansar e lá pelo meio dia voltamos ao hospital. Depois de nos mandarem a uma sala, nos mandarem voltar para o lugar que estávamos, voltar para a sala que estávamos uma vez mais, um médico atendeu o Daniel. De imediato lhe deu uma receita para que comprasse soro e instrumentos, como seringa e mangueira, em uma farmácia que estava dentro do hospital. Aí já se foram 27 soles. Só depois de comprar o soro e os instrumentos é que lhe colocaram numa maca para tomar o soro. Em seguida o médico me deu um papel com o qual eu deveria ir ao caixa e pagar algumas coisas. Paguei 8 soles por serviços e mais 8 soles pela consulta. Ao acabar o soro, o médico me pediu que comprasse outro tipo de soro para o Daniel beber e ver se o corpo aceitava bem. Aceitou, mas não foram necessários os 1000 ml da garrafa de tamanho único, senão um copinho. Nessa se foram mais 6 soles. No final das contas saímos com uma receita de um antibiótico e com 51 soles (equivalente a 35 reais) a menos. O hospital chamava-se Hospital da Solidariedade, o que a princípio me pareceu um pleonasmo, mas longe disso, era uma antítese.

Deixo para que as pessoas que leram essas situações de três países em processos diferentes (um país socialista, um país construindo uma revolução socialista e um país ainda em plena transformação rumo ao neoliberalismo) reflitam sobre como deve ser o serviço de saúde de um país. Se devemos ser clientes ou pacientes.